Deixe eu lhe apresentar a Cláudia

A Cláudia está comigo antes mesmo do que minha memória consegue alcançar e me acompanha diariamente nessa caminhada da vida, mas eu não sabia de sua existência e companhia até poucos anos atrás. A Cláudia é bem chata – desculpa aí a sinceridade –, mas é que ela tem o costume de aparecer quando não é convidada e normalmente é bastante inconveniente. Quando eu quero fazer uma coisa, me enche de perguntas e traz à tona situações vividas, totalmente fora do contexto, para me dissuadir de fazê-la. A Cláudia adora um julgamento, tem uma grande inclinação a querer dar sua opinião sobre tudo e todos – chega a coçar a garganta –, ela se acha acima da maioria, superior, sabe? Antes eu não conseguia distinguir tão claramente quando ela falava, até porque achava que éramos uma só e, ingenuamente, achava que ela era legal e só queria meu bem. Me deixava levar por suas ideias, visões, não vou negar que ela tem uma capacidade de persuasão considerável, mas comecei a perceber as sutilezas na sua chegada, onde se sentia mais confortável a interferir, quais momentos eram mais propícios a ela aparecer repentinamente e sua forma taxativa de comunicação. Esses indícios foram me deixando mais alerta para evitá-la. Se você ainda não percebeu, deixa eu ser mais clara, lhe apresento a Cláudia, o meu ego.

Lhe disse no artigo (Abrir os olhos) que o ego não é de todo o mal, pois nada é, mas não não fui tão clara sobre ele ser muito desagradável. Vou ser direta aqui nessa parte. Tudo que você pensa, acha que gosta, defende como sua personalidade, se identifica… pois bem, não é você, e sim seu ego. Eu sei, pode ser que você vá embora agora ou desista de ler esse artigo, mas as verdades precisam ser ditas por mais desagradáveis que sejam. Quanto mais você se identifica com algo, posição, papel que exerce, mais tomado pelo ego você está, e isso em outras palavras quer dizer que você está inconsciente, ou seja, você não tem consciência de suas atitudes, forma de ver a vida e quem você está. Eita, que agora ficou complexo. Na verdade, é isso que nosso ego quer que pensemos para que ele possa o quanto antes tomar posse de seu posto de costume, que é continuar controlando da forma que sempre fez e você consentiu. A Cláudia é essa daí, quer estar no controle de tudo, mas desde que a percebi ela já perdeu, e vem perdendo, muito território, o que a deixa desestabilizada mas ao mesmo tempo buscando outra forma para me “pegar”.

Tá, mas isso é uma corrida de gato e rato? Mais ou menos por aí, cada vez que ela se dá conta que a percebi ela busca encontrar alguma outra forma de se identificar, e por que isso? Porque o pensamento por si só não tem forma, ele é o que é e ponto, mas o ego ele busca controle, ele quer se identificar de alguma forma com algo externo para ter forças e assim buscar algo pelo que lutar. Vejamos o exemplo de uma criança com seu brinquedo preferido, ela está inconsciente pois ela e o ego são um, ela está formando sua personalidade, e a partir do momento em que tiram esse brinquedo ela chora muito, não é verdade? Pois ela se identifica com ele, aquele brinquedo faz parte dela, é como se arrancassem uma parte sua e aquilo lhe dói profundamente e é isso que o ego faz com todos os outros objetos, momentos, papéis que vivemos no decorrer da vida, pois ele nos quer apegados, identificados com aquilo, pois dessa forma ele se vê forte, dominante e superior, do jeitinho que ele mais gosta. Não foi fácil perceber a Cláudia, e vou lhe falar que às vezes – mais do que gostaria de admitir – ela me passa a perna, é ágil, sagaz e quando percebo já estou em sua teia.

Duas perguntas a serem respondidas: Por que trouxe esse assunto e por que Cláudia? Bem, primeiro porque quero que você se liberte de achar e se identificar com todos esses pensamentos que borbulham em sua cabeça a todo instante. Isso são artimanhas do seu ego para manter você ocupado e não fazer o que é de verdade importante para você. Tenho certeza de que chega no final de alguns dias e parece que você não fez nada do que gostaria e tinha se proposto, isso é normal quando estamos sendo comandados por essa voz que está o tempo inteiro dizendo que você deveria fazer isso em vez daquilo, que você não dá conta, que você decepciona a todos, todo mundo dá conta menos você. ATENTE-SE, esse é o tipo de comportamento habitual do ego, ele quer fazer você se sentir incapaz, que sempre falta algo e que você tem que ir atrás. Não deixe ele convencer você, a força, a garra e tudo mais que você precisa estão exatamente aí dentro de você, basta silenciar essa voz incômoda. Não estou dizendo que é fácil, mas é possível, esteja presente e consciente, o ego não consegue se manter ativo dessa forma. Quanto à Cláudia, eu dei um nome ao ego para que cada vez menos me identifique com ele, e quando percebo ele querendo tomar conta já digo: “Tá bem, Cláudia, senta lá agora!”. O ego não gosta de ser percebido, e nem de se sentir ridículo por isso, sempre que dá as caras eu rio, literalmente, e penso “já te vi aí escondido, pode sair”. Isso o enfraquece e desestrutura, mas não o faz desistir, e assim seguimos. Tente ficar atento a ele e depois me conta aqui a experiência com a sua Cláudia.

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