Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos

Esta é uma frase de Anaïs Nin e preciso lhe dizer que acredito que ela foi extremamente feliz quando a mencionou. A Anaïs viveu no século passado, uma pena, pois eu gostaria de comentar a ela o quanto concordo com sua citação. Sempre vão existir diferentes formas de ver o mesmo cenário. Há quem aproveite um dia de chuva para se jogar em um banho e agradecer a natureza, e neste mesmo acontecimento pode ter alguém xingando aos céus por essa água cair exatamente no momento em que saiu para a rua. Como sempre menciono a você, aqui não existe certo ou errado e nem escolha de lados e sim, oportunidades, tanto para mim quanto para você de nos colocarmos a pensar individualmente se estamos felizes e satisfeitos com a forma como estamos agindo e levando nossas vidas. Não acredito em coincidências e por essa razão me peguei rindo pela manhã enquanto lia meu livro do momento que veio corroborar exatamente o que comecei a escrever neste artigo ontem e que “por alguma razão” não estava fluindo.


O livro em questão é “Em busca de sentido“¹ de Viktor E. Frankl, e nele o psicólogo/autor fala sobre o comportamento das pessoas e, sua própria vivência, em uma situação-limite como o campo de concentração, nesse caso Auschwitz. Não vão haver spoilers por aqui, até porque é de conhecimento público o que aqueles prisioneiros enfrentaram, mas como mencionado por Viktor, existem momentos extremos como privação de sono, comida, de liberdade e tudo que se reflete a partir disso, mas ainda assim há possibilidade de escolha de como aquilo será enfrentado. O psicólogo menciona de forma tão delicada através de seus olhos atentos que mesmo uma pessoa sob aquelas circunstâncias pode optar, em um sentido espiritual, se será um típico prisioneiro de campo de concentração e portanto se entregando de forma vencida àquele momento ou um ser humano que luta para conservar sua dignidade, mesmo que mínima. Nós não precisamos pensar no mais extremo para valorarmos nossa vida, tudo bem que às vezes é necessário para enxergarmos a realidade, mas é importante que tenhamos em mente que um dos sentidos de nossa existência se refere a atitude que teremos perante momentos árduos e penosos.


Falo que não precisamos ir em casos tão longevos, pois vivenciamos hoje um cenário assim, como o de campo de concentração, salvo obviamente suas individualidades, onde também temos privações, uma das primordiais, a nossa liberdade de ir e vir e de estarmos perto de quem amamos. Isso é real, isso é palpável e lhe pergunto como você age perante esse cenário? E não estou entrando no mérito de sair ou não sair, manter o isolamento ou não, isso cabe a consciência e reflexão de cada um, mas o questionamento aqui é mais sobre como você vê isso? Buscou neste período ver só o seu lado de não poder sair, fazer as atividades que gosta, estar com quem se ama ou aproveitou uma situação de privação para poder se conhecer, descobrir em você razões para lhe manter de pé ou acabou por se afixar a ideia de que tudo está um horror, nada melhora e apontando dedos para quem agia diferente de você? O autor traz à tona algo que prefiro colocar ipsis litteris… “Essas pessoas estão se esquecendo de que, muitas vezes, é justamente uma situação exterior extremamente difícil que dá à pessoa a oportunidade de crescer interiormente para além de si mesma.”².


A reação que você terá sobre determinada situação diz muito mais a respeito de você do que a circunstância propriamente dita. Os cenários nos são colocados para que possamos aprender a nos desenvolver. Podemos nos colocar como reféns e vítimas das circunstâncias que vivenciamos, mas isso nos tira toda capacidade de escolha e de liderança da nossa própria caminhada. Não importa o que esteja acontecendo lá fora, não importa o que esteja acontecendo na sua vida, a escolha de como ver as coisas cabe unicamente a você e ela pode trazer uma mudança substancial na sua jornada. Optei por trazer um cenário dolorido e carregado para que não existam desculpas, de você com você mesmo. A vida vai nos colocando percalços, não há como fugir disso, porém, a forma como vamos enxergá-los pode ser mudada a qualquer instante basta querermos, está escolha sim nos compete. Se dentro de um campo de concentração havia a possibilidade de escolha entre abandonar-se a cada dia um pouco mais esperando a hora da sua morte ou vencer-se internamente a cada instante, você quer mesmo me convencer de que não há possibilidade de mudança na sua escolha? Penso que está na hora de mudar a forma como você vê as coisas.


¹ FRANKL, Viktor E., Em busca de sentindo: um psicólogo no campo de concentração/ 49 .ed. São Leopoldo: Sinodal ; Petrópolis : Vozes, 2020.

²FRANKL, Viktor E., Em busca de sentindo: um psicólogo no campo de concentração/ página 96.

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