O que enfrentar o medo de surfar mudou em mim

Essa é uma outra parte do blog que decidi dedicar a algumas experiências que vivi e que foram, digamos, divisores de água na minha caminhada. Não necessariamente será em uma ordem cronológica e sim conforme a memória e a inspiração forem se apresentando. Este vai ser sobre o surf/surfar. Eu escrevi um texto breve no Instagram (link) falando um pouco sobre minha vivência até então nesse esporte, mas aqui vou falar mais sobre seu início e seus efeitos.

Antes de mais nada, pode acreditar quando digo que não existia pessoa mais improvável para o surf do que eu. Minha mãe tem um medo de água que parece que veio de outras vidas, e ela nos transmitiu isso – a mim e ao meu irmão – por cordão umbilical. Uma vez ela me puxou pelos cabelos na beira do mar porque achou que demorei demais a voltar, mas não devo ter levado nem dois segundos embaixo d’água, uma porque era criança, e não conseguia prender a respiração por muito tempo, e outra porque eu já tinha o medo arraigado em mim. Eu e meu irmão então buscamos esportes em terra firme. O louco é que nosso corpo sempre sabe do que precisamos, não é mesmo? O difícil é silenciar e escutá-lo. Ao passo que tinha esse pavor de água, sempre tive uma vontade enorme de fazer natação, queria de alguma forma enfrentar esse receio todo que tinha em relação à água, mas nunca o fiz. Ainda tenho muita vontade de fazer natação.

Fui para outros esportes, mentira, nunca fui das mais ativas, sempre preferi ler, ver filmes, entender sobre o mundo e as pessoas, do que colocar meu corpo em ação. Como eu não entendia nada! A vida é um equilíbrio, nem só livros, nem só esporte. Bem, sigamos a história. Sempre fui da beira da praia, pegar sol, ler um livro, correr, meditar, e, vou lhe dizer, não estava ruim assim não, viu? Gostava, e continuo gostando, dessas atividades, mas quando alguém faz algo com amor e entusiasmo e transmite aquilo desperta uma vontade de experimentar para ver se realmente é tudo que diz. Meu namorado trouxe isso e plantou a sementinha em mim. Minha curiosidade lá de trás começou a se animar, mas eu posterguei até o limite, inventando todas as desculpas possíveis: quando a água estiver mais quente eu vou, quando o mar estiver mais baixo etc. A zona de conforto me abraçava e me puxava como um cobertor quente na cama quentinha em um dia frio.

Surgiu uma viagem, a possibilidade perfeita para dar início à prática do meu novo esporte. Pensa em um lugar convidativo e pensa em uma pessoa despreparada. Fiz uns dias de treinamento antes de ir, com corridas e apoios, achando que isso poderia me ajudar. Que boba fui ao achar que meus dez dias de atividades iriam me permitir varar¹ o mar e ficar no outside², só esperando as ondas virem. Visualize uma pessoa quase sem fôlego ainda na beira, trabalhando com sua cabeça que disse desde o momento um que não iria conseguir, que o melhor era ter ficado em terra firme, lendo meu livro. Éramos em umas oito meninas, todas já surfando, e eu pensando: “O que estou fazendo com esses braços que não me tiram do lugar?”. Admito que elas faziam parecer fácil, e eu não entendia onde estava errando, porque parecia fazer o mesmo que elas, mas obviamente não.

Quando consegui sentar na prancha, a todo instante passava na minha cabeça que ia cair e um tubarão surgiria e me arrancaria um pedaço, juro para você! Caramba, nossa mente é chata demais, hein? Vou lhe falar. Caí da prancha TODAS as vezes que tentei subir e de todas as formas que você possa imaginar. Eu tomei água, pranchada na coxa, machuquei meus pés de roçarem na parafina, cheguei em casa exausta, vinda da guerra, sim literalmente de uma guerra particular. Pensei em desistir a quase todo instante. Na minha cabeça borbulhava: por que razão você está se colocando em uma situação dessas, o que está querendo provar e para quem? No início foi um pouco pela animação das pessoas ao redor, mas no dia seguinte, quando fiquei em pé na prancha (foto acima) – duraram poucos segundos, mas não importa, a foto ficou linda –, a ideia de continuar foi minha, a vontade de se superar permanece sendo minha porque o sentimento de ficar em pé foi suficiente para esquecer todos os perrengues passados, fora que a sensação de vitória sobre sua mente é saborosíssima.

Este é um artigo de uma pessoa apaixonada que está tentando convencer você? Humm… não, por mais que ache que você deveria tentar sair da zona de conforto, se enfrentar, mas acima de tudo o que quero lhe mostrar com essa experiência é que o medo me acompanhou do início ao fim e está sempre presente, ele não vai sumir para que você faça algo excitante e depois ele volta. A nossa mente trabalha para nos manter vivos e ela acha que tudo, absolutamente tudo, em que ela não tem controle pode nos matar e ela tenta de todas as formas fazer você desistir para manter você vivo. Ela não tem consciência dos resultados que aquela experiência pode lhe trazer posteriormente, por isso é preciso “vencê-la”. Quando você se supera, sai mais forte da situação, e isso é inquestionável, você sente lá dentro que, sim, é capaz e ninguém pode desmentir você. Foi isso que o surf despertou, e segue despertando, em mim. Sempre tento me desafiar quando entro no mar, ir um degrau a mais, remar um pouco mais, tento manter minha mente focada, tento não me afogar – senão minha mãe me mata –, é quase como se fosse uma meditação, limpando minha mente. E por isso constantemente quero voltar, porque o sorriso de satisfação que vem depois da prática é propulsor.

E você, quando foi a última vez que enfrentou algo que lhe dá medo, arrepia você só de pensar, mas que gostaria muito de fazer? Pode ser um indicador de algo que irá lhe fazer sorrir de satisfação. Pense com carinho e se planeje a tirá-lo do papel, ou do plano das ideias, e trazê-lo para a ação. Tente e me conte aqui depois como se sentiu.


¹varar o mar, também conhecido como varar a arrebentação – Transpor a arrebentação, local onde as ondas quebram.  (https://guiame.com.br/nova-geracao/geral/vocabulario-do-surfe.html)

²Outside – ondas mais longe da costa ou qualquer lugar depois da arrebentação. (https://adrenalina10.com/dicionario-de-termos-e-girias-do-surf/)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *