Relacionamento abusivo

Esse artigo foi pensando diversas vezes se sairia dos meus arquivos particulares para virar público por seu grau de pessoalidade. Ele é tão íntimo, mas, ao mesmo tempo, tão necessário de ser dividido que aqui está ele no blog. Hoje em dia, infelizmente, quase todos nós já sofremos algum tipo de abuso (e aqui não existem bandeiras, ok? É somente uma constatação) seja de pessoas próximas, do mesmo sexo, do oposto, físico ou emocional, em menor ou maior grau, em um relacionamento amoroso, de amizade ou profissional. Não importando como iniciou, pois, o resultado de qualquer abuso é o mesmo, marcas na nossa vida e caminhada e que temos de aprender, de alguma forma, a lidar após ocorrido. Quando sucedido o abuso o primeiro pensamento, — um das partes mais loucas disso tudo —, é: ” foi culpa minha isso ter acontecido” e pode ter certeza que o abusador vai fazer questão de frisar que realmente foi você o causador. Quem me acompanha aqui sabe, assuntos densos assim que normalmente fingimos não ver são trazidos para que possamos olhar mais atentamente para nossas vidas e questionarmos se estamos vivendo situações semelhantes ou se alguém próximo está. Pode ser ruim no primeiro momento, mas prevenir é sempre um ótimo remédio.

Bom, mas se estou trazendo essa pauta para falarmos, parecendo ter conhecimento de causa, é porque já passei por uma situação dessas, certo? É exatamente isso, e falarei sobre o que eu tenho entendimento, o que eu vivenciei não entrando profundamente no que desconheço, isso seria um erro. Já se vão sete anos que me libertei de um relacionamento abusivo, olha quanto tempo levou para que eu pudesse falar um pouco mais abertamente sobre esse assunto, têm pessoas que levam uma vida inteira e outras que nem conseguem falar sobre o tema pois se sentem responsáveis por toda dor que carregam. De repente se você não sofreu nenhum tipo de abuso (ainda bem) você pode acreditar que seja um exagero e que só está nessa situação quem quer, peço, gentilmente, que se você quer continuar a leitura se liberte de seus julgamentos ou se não consegue pare agora e vá fazer outra coisa. Pois, essa dor que menciono aqui na maioria das vezes vai além do físico, emocional e mental, ela te marca na alma. Você passa e repassa as situações em sua cabeça, muitas vezes mudando-as para trazer a culpa para si e isso pode, e vai, mexer profundamente com o equilíbrio de suas emoções. Você nunca mais é o mesmo depois de uma experiência dessas, desacreditando de você e de suas capacidades, pelo menos foi o que ocorreu comigo.

Não importa de que forma ou por qual razão você se colocou nessa situação, mas de algum jeito você se encontra fragilizado, com dúvidas e suscetível às pessoas não tão legais. Isso não tem nada de errado, pois somos seres que variamos sentimentos em pouquíssimo tempo e se uma sequência deles nos pega debilitados é um prato cheio para chegar qualquer coisa. Demorei para admitir que aquilo não era meu, mas, que por alguma razão, naquele momento, foi o que eu atraí para minha vida. Era céu e inferno em simultâneo, promessas infinitas e atitudes opostas, suspeitas infundadas incessantemente, fazendo com que me questionasse sobre meu comportamento e princípios. É jogo mental pesado sem você nem ao menos perceber por qual razão termina o dia tão exausto. Tudo seu está sendo sugado ali personalidade, espontaneidade, sonhos, sua alegria de viver. Você já deve ter ouvido sobre os ciclos que um relacionamento desses passa, não é? De qualquer forma aqui estão as três fases: “Aumento da tensão” onde o abusador tem acessos de raiva constante, fazendo ameaças e humilhando o outro. Aqui, como dito anteriormente, a pessoa abusada nega os acontecimentos e passa a se culpar pelo comportamento do violador. “Ataque violento” é quando o abusador perde o controle e materializa a tensão da primeira fase, agredindo e isso pode ser de maneira física, verbal, psicológica, moral, sexual, etc. “Lua de mel” é nesta fase que o abusador demonstra arrependimento, faz promessas de que não acontecerá novamente e busca reconciliação. Infelizmente, depois de um tempo o ciclo volta a ocorrer, muitas vezes sem obedecer à ordem destas fases¹. Não existe a mudança real.

Por estar em um momento mais vulnerável e por escutar incontáveis vezes que aquela é a melhor relação que você pode ter, muitas vezes parece impossível sair dessa, mas por experiência própria não é! É um momento de coragem que você precisa, só um! Você conseguiu chegar até aqui sem essa pessoa, parece difícil acreditar que você não conseguirá nada melhor (porque o abusador faz questão que você acredite nisso), mas você com certeza encontrará pessoas e experiências incríveis na sua vida. Se sua intuição grita para você sair (por mais que tente abafá-la), corra! Normalmente um abusador é visto como alguém muito legal pelas pessoas de fora, conseguindo enganar até os mais sagazes, mas ninguém vive sua vida, ninguém calça os seus sapatos. Jamais permaneça com alguém que sua família e amigos amam se a única coisa que você quer é vê-lo pelas costas. A vida é sua, quem vive suas experiências é você então, não deixe que ninguém influencie em suas escolhas. Por fim, acolha tudo isso e deixe ir, a lição aprendida é levada para a vida, mas você não precisa passar mais tempo nela para aprender. Por alguma razão essa experiência cruzou seu caminho, você tem uma parcela sobre isso, mas é sua responsabilidade sair dela também. Junte forças, peça ajuda (às vezes você disfarça tão bem que as pessoas ao redor nem imaginam), mas não fique nem mais um segundo em um lugar que faça você duvidar de si mesmo e te faça sentir medo. Isso não é vida.


P.S. Aqui eu abordei a minha experiência, sendo um relacionamento amoroso, mas como dito no artigo pode ser em qualquer relação, e às vezes muito mais sutil do que podemos imaginar. Esteja atento e alerta, pois as relações que mantemos devem ser leves e trazer o melhor de nós, se alguma próxima a você está fazendo o oposto a isso, repense-a.

¹Fonte: http://www.saopaulo.sp.leg.br/mulheres/ciclo-da-violencia-domestica-saiba-como-identificar-as-fases-de-um-relacionamento-abusivo/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *