Viva e deixe morrer

Senti de trazer esse tema para discutirmos a importância de encerrarmos ciclos. Em um artigo anterior abordei o quanto nós sofremos por não deixarmos ir, sejam situações, momentos ou pessoas. Somos seres apegados e esse é um dos nossos maiores pontos fracos, digamos assim. Rapidamente nos afeiçoamos, encontramos pessoas com gostos em comum e já nos sentimos próximos, nos acostumamos facilmente com as situações e quando percebemos nos acomodamos. Muitas vezes na busca de nos encaixarmos, acabamos por tentar nos moldar ao ambiente entortando a nós mesmos para não ter de admitir que de repente aquele lugar já teve seu tempo finalizado na nossa história e o mesmo acontecem com nossas relações. Ciclos existem para terem suas fases vividas e encerradas. Muitas vezes é dolorido, sofrido, triste, mas muito em razão de não permitirmos que aquilo finalize e abra espaço para que o novo possa vir. Não, isso não é frieza, indiferença ou qualquer outra palavra que busque em seu vocabulário para dizer que isso é errado ou ruim. Meu contraponto é que o não libertar faz com que tudo fique estagnado, sendo a área que for da sua vida.

Escorpianos têm como característica própria a capacidade de transformação isso é de metamorfosear, seja de ambientes, lugares ou ele mesmo para se ajustar ao ser humano em construção que ele está buscando ser. Pode ser que em razão desse aspecto intrínseco consiga lidar um pouco mais facilmente com encerramentos, mas todos nós já passamos por situações desafiadoras em nossas vidas que nos exigiram encerrar ciclos — ou situação —, que precisavam ser finalizadas, todos temos essa capacidade. Seja de forma inata ou se dedicando para que ela se torne mais natural em nossas vidas. Encerrar e iniciar ciclos é isso, é deixar ir aquele velho ambiente conhecido para desbravar o novo que pode e, muito, lhe ajudar nos próximos passos a dar. Entenda, isso não é maldade, mas nada foi feito para durar para sempre, se você todo dia que acorda está um pouco diferente de ontem o que lhe leva a crer que as situações e pessoas ao seu redor devem ser sempre as mesmas? Aceitar o fim dos ciclos é se libertar das cargas que não fazem mais sentido, é fazer as pazes com o que já foi aprendido, é se abrir para o novo, incluindo você.

Em uma parte do livro que estou lendo atualmente algumas perguntas me chamaram a atenção e trago – as aqui para fazer você refletir também. “Ao que eu preciso dar mais morte hoje, para gerar mais vida? O que eu sei que precisa morrer, mas hesito em permitir que isso ocorra? O que deveria morrer hoje? O que deveria viver? Se não for agora, quando?”¹. Temos dificuldade de entender que a morte não é somente de nossos corpos físicos no final de nossa vida terrena, a morte deve acontecer diariamente para que possamos viver novas experiências e em maior sintonia com quem estamos nos tornando. A morte não é ruim, — lembra que já comentei que tudo é questão de perspectiva? — Eu agradeço pela morte de partes da Josiane, todos os dias, partes que já não fazem sentido permanecerem e querer mantê-las, percebi, era nada mais que apego. O morrer, assim como o viver, são naturais a todas as espécies, que comecemos a tratar estas questões com maior sutileza, pois essa é a ordem natural de todas as coisas.

Se faça essas perguntas com frequência, você está se movimentando em direção ao que deseja ou se apegando ao conhecido mesmo que lhe faça mal pelo medo de soltar? Olhando para trás você se vê muito como a pessoa que era, sem muitas mudanças? Se a resposta for sim, se questione ao que está se apegando, que parte sua não deixa morrer para que uma nova possa renascer? Expanda isso para sua vida na totalidade e preste atenção ao que surgir. Seja sua prioridade sempre! Quanto mais questionamentos você faz a si mesmo maior conhecimento tem sobre si e essa é a sua ferramenta mais valiosa, a que mais lhe exige, mas a que mais lhe dá retorno. Toda indagação que nos fizemos já temos a resposta, porém, muitas vezes não queremos admiti-la, pois isso exigirá, possivelmente, que matemos uma parte de nós, muitas vezes aquela mais conhecida a nossa base e a que temos maior convicção sobre. Todavia quanto mais seguros estamos sobre algo mais a vida vem e nos mostra que isso é uma ilusão e que precisamos nos reinventar para seguirmos fiéis a quem mais importa, nós mesmos.


¹ ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos – 1ª Edição . Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

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